Repetir de ano não é o fim do mundo

PGarfieldor que tanto drama quando os pais recebem a notícia de que o filho está prestes a perder o ano na escola? Se um ano significa muito pouco no final das contas, por que a reprovação costuma provocar reações tão exageradas? A vida escolar é longa, cheia de desafios, por que a nossa cultura é de rejeitar de forma tão contundente qualquer tropeço nessa caminhada?

Repetir de ano é uma perda, um momento difícil e não é para ser comemorado. Mas refazer o que não foi bem feito deveria ser assimilado como parte do processo. Quantas coisas ao longo da vida, inclusive profissional, precisam ser revistas e refeitas, sem que isso signifique um grande fracasso? Os pais precisam tomar cuidado para não fazer da reprovação uma experiência ainda mais penosa para as crianças, que já sofrem com a frustração de ficar para trás.

Para Ana Olmos, psicanalista infantil e orientadora de família, a reprovação na escola desperta nos pais o sentimento de fracasso e de vergonha perante amigos, parentes e integrantes do grupo formado pelas famílias e alunos da classe. Segundo ela, os pais que conseguem minimizar o julgamento social sobre eles e a criança – ou seja, conseguem não ligar para o que os outros pensam – têm uma chance muito maior de superar o problema e ajudar o filho nessa situação.

Embora seja sofrido para os pais e para a criança, repetir o ano deve ser encarado como uma possibilidade de colocar as coisas no lugar. É uma oportunidade para a família avaliar os vários fatores que contribuíram para o fracasso. A reprovação pode ser um resultado da imaturidade da criança para aquela série, da inadequação da escola, ou até da falta de organização da vida para favorecer o processo de aprendizagem, como uma rotina saudável para comer dormir e fazer as tarefas. Coisas que cabe aos pais organizar.

A psicanalista avalia que as famílias têm dificuldade em aceitar que os fatores são múltiplos e se relacionam. Para ela, receber a notícia de que o filho está para repetir de ano como uma surpresa é uma demonstração de que a criança não foi acompanhada pela escola e pelos pais como deveria ao longo do ano. A família deveria ter sido comunicada antes e colaborado para recuperar o aluno.

Se as dificuldades no aprendizado foram detectadas e trabalhadas por meses, a criança está mais preparada para entender que terá de refazer porque não conseguiu aprender o que era necessário. E os pais não vão ver o filho como um incompetente; estarão cientes e prontos a compreender as limitações da criança.

A presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Quézia Bombonatto, também disse que a criança precisa ser acompanhada e cobrada o ano inteiro, mas é comum a família ficar omissa e depois culpar a criança. “A criança nunca fracassa sozinha”, garante.

A psicopedagoga reforça que os pais precisam lidar com a frustração e a decepção de que o sonho não deu certo como eles desejaram. Só assim é possível focar a questão no desenvolvimento da criança, em vez de ficar rotulando e enfatizando o fracasso. Os pais precisam sair da posição de reprovados para ajudar o filho a superar. É preciso olhar para frente, saber que é necessária uma mudança de postura para que repetir o ano não seja fazer tudo de novo do mesmo jeito.

Segundo Quézia, as reprovações nas séries iniciais em grande parte estão relacionadas com uma imaturidade no desenvolvimento neurológico e cognitivo para absorver determinados conteúdos. Nestes casos, refazer o ano é uma boa oportunidade para melhorar o desempenho da criança. Ela também recomenda muito critério para recorrer às aulas particulares. Quando o aluno não teve compromisso com o estudo durante o ano todo, não vale a pena tentar salvar um ano em algumas semanas.

Thelma Torrecilha é jornalista, especialista em Comunicação Social e Educação

11 conselhos aos professores

 



1. O
ensino não pode ser delegado aos pais. Pais educam, professores ensinam.

2. Aluno não deve
cumprir castigo sozinho. É preciso alguém junto, orientando o que deve ser feito.

3. É preciso confrontar
o que o aluno conta com a verdade real.
Se falar que colega o xingou, tem que  ouvir o outro lado, além das testemunhas.


4. Informação é diferente de conhecimento.
O ato de conhecer vem após o ato de ser informado de alguma coisa. Não são todos que conhecem.
Conhecer camisinha e não usar significa que não se tem o conhecimento da prevenção que a camisinha proporciona.

5. A criança
deve ser capaz de explicar aos pais a matéria que estudou e na qual será testada. Não pode simplesmente repetir, decorado.
Tem que entender.  

6. É preciso transmitir aos alunos a idéia de que temos de produzir o máximo que podemos. Isto porque na vida não podemos aceitar a média exigida pelo colégio: não podemos dar 70% de nós, ou seja, não podemos tirar 7,0.


7. Se o professor ficar
nervoso porque o aluno aprontou alguma coisa, não deve alterar a voz. Deve dizer que está nervoso e, por isso, não quer discussão até ficar calmo. A calmaria, deve dizer, virá em 2, 3, 4 dias. Enquanto isso, o recreio, o parque, o computador, ficarão suspensos, até ele se acalmar e aplicar o devido castigo.
 

8. Se o aluno não aprendeu ganhando, tem que aprender perdendo.

9. Não pode prometer presente pelo sucesso que é sua obrigação. Tirar nota boa é obrigação. Não xingar professores e colegas é obrigação. Fazer a lição é obrigação.  Ser polido é obrigação. Passar de ano é obrigação.


10. Professor tem que ser líder. Inspirar liderança. Não pode apenas bater cartão.  

11. Professores precisam saber usar computador e internet.

Adaptado de Içami Tiba.